Saúde da mulher

Laser e radiofrequência íntima: como funcionam e evidências

Por Instituto AG · 19 de dezembro de 2024 · 6 min de leitura

Médico de jaleco em pé diante de um grupo de pessoas sentadas em uma sala clara com plantas

As tecnologias usadas no chamado rejuvenescimento íntimo, principalmente o laser de CO2 fracionado, o laser de érbio, a radiofrequência e o ultrassom microfocado, agem aquecendo o tecido para provocar uma pequena lesão controlada que estimula remodelação. Elas foram estudadas sobretudo para a síndrome geniturinária da menopausa e para a perda de urina aos esforços, mas os estudos ainda são, em boa parte, pequenos, curtos e com resultados variáveis. Para uso estético ou de melhora sexual, a evidência é ainda mais fraca, e há alertas de autoridades e sociedades médicas sobre esse tipo de divulgação.

O princípio comum: calor controlado

Todos esses aparelhos partem da mesma ideia. Ao aquecer o tecido até uma faixa de temperatura específica, provocam uma lesão pequena e controlada. Em resposta, o corpo inicia um processo de cicatrização que envolve produção de colágeno, formação de novos vasos e espessamento do epitélio, a camada que reveste a vagina.

O que muda de um aparelho para outro é a forma de energia, a profundidade alcançada e o quanto a superfície é atingida. Essas diferenças explicam por que os efeitos e os riscos não são iguais.

Laser de CO2 fracionado

O laser de CO2 tem afinidade pela água dos tecidos. No modo fracionado, ele cria microcolunas de lesão separadas por áreas de tecido intacto, o que ajuda na recuperação. Na vagina, a aplicação é feita com uma ponteira introduzida no canal; na vulva, de forma externa.

É a tecnologia mais estudada para a síndrome geniturinária. Estudos observacionais mostraram melhora de sintomas como ressecamento e dor na relação, mas ensaios que compararam o laser a um procedimento simulado tiveram resultados conflitantes, alguns sem diferença clara entre os grupos. O acompanhamento além de um ano é escasso.

Laser de érbio

O laser de érbio também é absorvido pela água, de forma ainda mais intensa e superficial. Em alguns modos, ele é usado sem romper a superfície, buscando apenas aquecimento. Foi estudado na síndrome geniturinária e, principalmente, na incontinência urinária aos esforços, com resultados de curto prazo em estudos pequenos e efeito que tende a diminuir com o tempo.

Radiofrequência

A radiofrequência usa corrente elétrica de alta frequência que, ao passar pelo tecido, gera calor por resistência. Ela alcança camadas mais profundas sem atingir tanto a superfície. Existem versões monopolares, bipolares e fracionadas, com ponteiras externas ou intravaginais.

É divulgada para flacidez, ressecamento, incontinência leve e função sexual. Há estudos pequenos em cada uma dessas situações, com métodos e aparelhos muito diferentes entre si, o que impede conclusões firmes.

Ultrassom microfocado

O ultrassom microfocado concentra ondas de ultrassom em pontos específicos sob a superfície, gerando calor em profundidade. É bastante usado na pele do rosto. Na região íntima, os dados publicados são escassos, e o uso deve ser considerado experimental.

Como as tecnologias se comparam

TecnologiaForma de energiaAlcancePrincipais usos estudadosEvidência
Laser de CO2 fracionadoLuz absorvida pela águaSuperficial, com microlesõesSíndrome geniturináriaA mais estudada, mas com resultados conflitantes
Laser de érbioLuz absorvida pela águaMais superficialIncontinência de esforço, síndrome geniturináriaLimitada, efeito pode diminuir
RadiofrequênciaCorrente elétrica que gera calorMais profundaRessecamento, incontinência, flacidezLimitada e heterogênea
Ultrassom microfocadoOndas de ultrassom focadasProfunda e pontualPoucos dados na região íntimaExperimental

Por que a evidência ainda é considerada limitada

Alguns problemas se repetem nos estudos dessa área:

  • Amostras pequenas: muitas pesquisas incluem poucas dezenas de mulheres.
  • Falta de grupo de comparação: sem um grupo que recebe procedimento simulado, é difícil separar o efeito do aparelho do efeito placebo e da melhora espontânea.
  • Acompanhamento curto: muitos estudos avaliam resultados em poucos meses.
  • Desfechos subjetivos: questionários de sintomas e de satisfação são úteis, mas sensíveis à expectativa.
  • Aparelhos e protocolos diferentes: potências, números de sessões e intervalos variam, o que dificulta comparar e somar resultados.
  • Comparação com o tratamento padrão: poucos estudos compararam diretamente as tecnologias com o estrogênio vaginal ou a fisioterapia pélvica.

Por esses motivos, autoridades sanitárias e sociedades médicas recomendam cautela e já alertaram contra a divulgação desses aparelhos para "rejuvenescimento vaginal" com finalidade estética ou sexual. A indicação, quando existe, deve ser médica e baseada em diagnóstico.

Riscos das tecnologias de energia

Mesmo sem corte, o aquecimento do tecido pode causar:

  • dor e ardor durante e após a sessão;
  • corrimento, inchaço e pequeno sangramento nos dias seguintes;
  • queimadura da mucosa ou da pele;
  • cicatriz e estreitamento do canal vaginal;
  • dor na relação sexual persistente;
  • piora de sintomas urinários em algumas mulheres;
  • reativação de herpes genital em quem tem histórico.

Em geral, o procedimento é adiado na gravidez, com infecções ativas, com exame preventivo alterado ou sangramento não investigado.

O que perguntar sobre o aparelho

Antes de aceitar um tratamento com energia, vale perguntar qual é a tecnologia, se o aparelho tem registro na Anvisa, para qual problema ele está sendo indicado, quantas sessões estão previstas, quanto tempo o efeito costuma durar e que alternativas existem para a mesma queixa. Para a secura da menopausa, as alternativas com mais estudos são descritas em opções de tratamento por queixa, e a relação com os hormônios está em sintomas da menopausa por fase.

A tecnologia é uma ferramenta, e não um diagnóstico. A decisão sobre usá-la deve partir de uma avaliação ginecológica individual, com informação clara sobre o que ainda não se sabe.

Perguntas frequentes

Laser íntimo dói?

A sensação varia conforme a tecnologia e a pessoa. Muitas mulheres descrevem calor ou ardor, e às vezes é usado anestésico tópico. Desconforto, ardor e corrimento nos dias seguintes são comuns. Dor intensa ou que piora deve ser comunicada ao médico.

Quantas sessões de laser ou radiofrequência são necessárias?

Os protocolos estudados costumam usar séries de algumas sessões com intervalo de semanas, mas não há padronização. Também não está claro por quanto tempo o efeito se mantém nem se sessões de manutenção são necessárias ou úteis.

Radiofrequência íntima é mais segura que o laser?

Não há base para afirmar que uma seja mais segura que a outra de forma geral. As duas aquecem o tecido e podem causar queimadura, cicatriz e dor. O risco depende do aparelho, dos parâmetros usados, da experiência de quem aplica e da condição da paciente.

Essas tecnologias melhoram o prazer sexual?

Não há evidência suficiente para essa promessa. Quando a dor na relação vem do ressecamento, o alívio desse sintoma pode trazer conforto, mas desejo, excitação e orgasmo dependem de fatores que nenhum aparelho controla.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Diagnóstico e tratamento devem ser feitos por profissional habilitado.

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